Mas a trajetória de Nova Friburgo começou a se complicar muito antes disto, principalmente, por causa dos nossos poderes políticos que permitiram uma ocupação desordenada dos nossos espaços públicos e naturais. Nossas lideranças políticas se descuidaram totalmente da promoção da qualidade de vida, através da preservação do meio ambiente e também da ativação do papel da cultura na formação da nossa sociedade. Há muitos anos estamos precisando de uma definição mais clara das nossas reais possibilidades turísticas para que pudéssemos fazer um investimento continuado e um planejamento que nos permitisse colher bons frutos no futuro. Ao mesmo tempo, não há bons projetos sociais porque nossas lideranças insistem em manter as pessoas dos bairros carentes como massa de manobra eleitoral. Nada disto ocorreu enquanto nossos “gestores” públicos desfilavam suas tolas preocupações corriqueiras, suas discórdias novelescas e vaidades sem fim nos púlpitos cercados pelos holofotes coniventes de nossa imprensa subserviente de pires na mão.
Mais uma eleição municipal está se aproximando e as nossas tacanhas lideranças, mais uma vez, parecem que não vão conseguir alcançar a importância de termos um debate substancial sobre temas tais como: nossas principais vocações, potencialidades, possibilidades, planejamento estratégico, metas e projetos de médio e longo prazo. Mas para resumir este debate infrutífero sobre politicagem, futilidade política, corrupção, incompetência e falta de amor por Nova Friburgo, gostaríamos de ir mais diretamente à raiz de nossos problemas.
Creio que cada um de nós, quando permite que se apaguem as nossas paixões, sonhos e vocações, acabamos por perder muito da nossa alma também. Tem acontecido isto com países, regiões e povos. Nova Friburgo, nas últimas décadas, tem dado vários exemplos de profundo desrespeito às suas vocações, cultura e raízes. No fundo, Nova Friburgo parece ter se esquecido de sua história.
Somente quando nos lembrarmos da nossa própria história, seremos capazes de nos respeitarmos verdadeiramente. Só assim poderemos compreender porque esta terra tem este ritmo de abacateiro, esta vontade de velho e este orgulho de cidade real. No passado, estas montanhas longíncuas, além de isolarem o resto do mundo, traziam também muita quietude e tranqüilidade ao povo do lugar. Talvez, por isto, Nova Friburgo seja tão conservadora e tenha tantas dificuldades com a mudança. Mas seguramente é bela e não quer envelhecer. Parece estar num grande dilema. Devemos olhar para o nosso passado e redescobrir nele nossas verdadeiras potencialidades.
Nova Friburgo, de vales verdes e bucólicos, foi conhecida, no passado, por sua grande fertilidade, belezas e clima. Enfermos de todo o Brasil vinham para cá se curar. Friburgo tem também profundas e significativas raízes culturais, inúmeros povos colonizadores e a presença dos Jesuítas, o que faz as suas raízes se perderem num passado distante. Foi também a primeira cidade brasileira criada por decreto do rei D. João VI. Nova Friburgo sempre foi produtora de cultura e de artistas. Há algo muito especial e singular aqui. Mas potenciais existem para serem realizados, assim como sementes tem que ser plantadas e brotos tem que ser regados se quisermos que árvores futuras dêem frutos suculentos e nos sintamos alimentados.
Antes de criarmos novos caminhos, temos que valorizar os caminhos que já temos. Antes de sairmos em busca do desenvolvimento com todos aqueles requintes da necessária modernidade, temos que resgatar a nossa própria alma. “De que adianta ganhar o mundo inteiro se chegarmos a perder nossa própria alma?” Pois quem quiser conhecer Nova Friburgo vai ter que começar a abrir os olhos. Nova Friburgo tem potencialidades e encantos de sobra, só aguardando a nossa atenção e os nossos cuidados. O mais interessante de tudo é que estes encantos costumam transformar em friburguenses todos aqueles que aqui vivem. Como dizia o saudoso amigo e historiador Raphael Jaccoud: "Friburguense é todo aquele que ama Nova Friburgo".